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Guerreiro fora de campo, Willian Farias vive luta diária pelo filho

Reforço tricolor viveu drama com Enzo, que sofre de paralisia cerebral

Salários altos, carrões, fama. É raro aquele que nunca se pegou imaginando que a vida de jogador de futebol beira a perfeição. Mas nem sempre a história é contada com todos os encantos que tomam conta do imaginário do torcedor. O volante Willian Farias, é um bom exemplo disso. A história dele envolve acidente de carro, pescaria, milagre e muita dedicação.

Na varanda de casa, ao lado da esposa Drielly, 25 anos, o volante tricolor, que tem 27 anos, começou o papo com o CORREIO bem-humorado. Logo ao relembrar como o casal se conheceu, ele riu. “É uma história meio de cinema. A gente se conheceu rapidamente numa baladinha que eu ia lá em Curitiba. Nós somos de lá. Fui com um amigo em comum com ela. Esse cara queria ficar com uma amiga dela. Ao sair de lá, eu bati o carro e foi ela quem me socorreu”, conta ele. “Eles tinham marcado de comer um cachorro-quente, eu vinha logo atrás, aí ajudei. Depois procurei ele no Orkut, começamos a falar todos os dias”, completa Drielly.

Assim como no jogo, Willian Farias foi dedicado. Fuçou a vida da moça bonita de olhos verdes, viu que ela tinha um avô que pescava e fez o quê? Sim, achou que era uma ideia genial convidá-la para pescar. Uma forma curiosa para paquerar, é verdade. Mas deu certo, ela mordeu a isca. “Eu vi fotos dela no Orkut que tinham um monte de peixe. O avô dela pescava no Pantanal, aí eu vi e falei ‘ah, vou convidar pra pescar’ (risos). Eu joguei a isca e ela pegou. Disse que gostava, mas chegando lá não sabia nem colocar a isca no anzol. Ela só queria era me ver mesmo”, recorda.

O casal se conheceu em 2010, quando o moicano de Farias nem sonhava em existir. No lugar, um cabelo loiro, liso, com franja e tudo. A partir da pescaria, os dois começaram a se ver todos os dias, namoraram e decidiram se casar em 2014. No mesmo ano, eles passaram por um dos momentos mais bonitos e mais dolorosos que já viveram. Drielly engravidou e, com sete meses de gestação, se mudou com o volante para Belo Horizonte quando ele foi contratado pelo Cruzeiro.

O milagre

Em maio, o sonho: nasceu Enzo Gabriel, perfeito e cheio de saúde. O pesadelo veio pouco depois. “Ele nasceu perfeito. Com 40 dias, teve uma doença autoimune. Ele ficou com os níveis de plaqueta e hemoglobina muito baixos, ficou muito debilitado e, quando foi fazer uma transfusão, teve uma parada cardiorrespiratória. Ele ficou quase meia hora sem respirar. Os médicos, depois de 10 minutos desistem, porque a criança não tem mais chance ou pode lesionar muito. Mas não desistiram dele”, contra Drika, como Willian Farias chama a esposa. “Meu filho é um milagre”, emenda o capitão, que troca a testa franzida por um olhar de ternura quando o assunto são seus filhos.

Quando Enzo passou pela sua primeira batalha, Willian Farias estava longe do filho, em intertemporada nos EUA com o Cruzeiro. “Foi muito difícil. Eu sabia que meu filho precisava de mim, mas não tinha o que fazer. Quando ia voltar para o Brasil, a delegação voltaria pela tarde e minha passagem era a única para a manhã. Ali eu tive medo. Cheguei, meu filho foi colocado em coma induzido, na UTI, eu não sabia o que estava acontecendo direito. Procurei a médica e pedi para me contar tudo. Quando perguntei das sequelas, ela disse ‘não sei nem se seu filho vai sobreviver. Em qualquer momento posso te ligar e dizer que ele veio a óbito’. Foi um tombo”, conta.

Pior: foi o próprio Willian Farias quem percebeu que havia algo sério acontecendo com o filho. A esposa lembra que foi em um momento de oração que o jogador colocou a mão na cabeça do menino e viu uma alteração. “Eu que descobri. Acredita?”. Drielly lembra de cada detalhe: “Ele ficou assustado, tirou a mão rápido e disse que a cabecinha do Enzo estava inchada. E pouco depois soubemos que ele tinha um edema cerebral”, relata.

Enzo teve convulsões, foi entubado e tinha expectativa de ficar sedado por um longo período. Mas o pequeno, mesmo com menos de três meses de vida, surpreendeu os médicos e apresentou evolução. A guerra foi dura. O pai perdeu 6kg, a mãe não saía do hospital e Enzo foi diagnosticado com paralisia cerebral.

Foi duro, mas no meio do caminho, a família Farias foi presenteada com outro milagre. Um milagrezinho bem bochechudo e loirinho: Lara. A pequena nasceu em março do ano passado. Independente, faz questão de cuidar dela e do irmão. “Ele se sente bem com ela, ela é amorosa, não sai do lado do irmão. Ajuda ele a estimular também. Ele balbucia algumas palavras. É um amor bonito de ver”, orgulha-se Drielly.

Sonho

Hoje, o primogênito, que completará 3 anos em maio, faz fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia para que possa aprender a mastigar. Com a doação intensa da mãe e a dedicação do pai, foi generoso e inspirou Willian e Drika a fazerem mais. Não por ele, mas por mais crianças.

Sabe os sonhos que vocês imaginam que os jogadores têm? Ter uma Ferrari, uma casa na Europa ou ir para a Seleção? O de Farias é diferente: abrir uma clínica de reabilitação, em Salvador, para crianças com paralisia cerebral.

“As pessoas abusam muito da sua necessidade. Você está fragilizado pelo seu filho e eles abusam financeiramente. Quero abrir uma clínica onde o foco seja a recuperação da criança, não o retorno financeiro. Quero que a criança possa trabalhar as necessidades dela. Às vezes, 30 minutos de fisioterapia é pouco. Quero proporcionar isso”, explica o volante, que comemora cada evolução de Enzo como um gol em final de campeonato.

 

Fonte: correio24horas

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