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Alex Silva cobra clube do coração “Precisa voltar a ser São Paulo”

Dez anos se passaram desde a última vez que Alex Silva jogou com a camisa do São Paulo, no Campeonato Brasileiro de 2008, quando o Tricolor paulista se consagraria tricampeão da competição. Coincidência ou não, desde então, o time vem sofrendo uma série de problemas dentro e fora dos gramados, enquanto o zagueiro passou por diversos clubes e agora está firmado no Jorge Wilstermann, da Bolívia.


Nesta entrevista exclusiva por e-mail à Gazeta Esportiva, Alex Silva mostrou que continua o mesmo jogador sem papas na língua, mas agora sem a cervejinha na mesa e com a missão de levar a palavra de Deus como missionário. Apaixonado pelo São Paulo, ele falou da crise que acomete o clube por uma década, da gratidão a Juvenal Juvêncio, ex-presidente tricolor morto em decorrência de um câncer, em 2015, e do trabalho de Rogério Ceni como técnico.

Além disso, falou sobre Seleção, seu palpite de quem leva a Copa neste ano, futebol brasileiro e sua carreira. Confira!

“Não culpo ninguém pelo meu caminho. O pecado gera consequências e você colhe o que planta. Eu plantei e colhi”.

Gazeta Esportiva: Você fez parte de um elenco vencedor no São Paulo, que se sagrou três vezes campeão brasileiro. Quais são suas lembranças daquela época?
Alex Silva: 
As lembranças são sempre boas, as melhores da minha carreira. Um grupo unido querendo os mesmos objetivos sem vaidades, ainda era um grupo recheado de estrelas, não foi por acaso que fomos três vezes campeões brasileiros seguidos.

Você saiu do São Paulo em 2008, quando o time venceu o último Brasileiro. Depois, o único título de expressão foi a Sul-Americana de 2012. Quais os grandes culpados disso? O que é necessário fazer para mudar a situação atual do Tricolor?
Alex Silva:
 Fico triste, mas isso mostra aos críticos do Juvenal o quanto estavam errados. Ele entendia muito de futebol e gestão, às vezes o povo só dá valor quando perde, infelizmente no Brasil é assim. Eu não aponto nem busco culpado, o São Paulo tinha uma filosofia em contratações na minha época. Acredito que, com o passar do tempo, começou a ir no embalo de empresários, isso é prejudicial para um clube da sua grandeza. Quando você fica na mão de empresários, você acaba devendo favor e trazendo contratações que não são para o time. Os jogadores acabam apenas ‘passando’ pelo São Paulo como uma ponte. Isso mudou um pouco quando Rogério assumiu como treinador: revelou vários jogadores da base, que geraram dinheiro para o clube, que estava precisando muito, mas, infelizmente, interromperam o trabalho dele, um trabalho que, na minha opinião, daria muitos frutos ao São Paulo.

Os jogadores acabam apenas ‘passando’ pelo São Paulo como uma ponte.

No meio de abril, o São Paulo foi eliminado da Copa do Brasil pelo Atlético-PR após abrir dois gols de vantagem em pleno Morumbi. O torneio era uma das metas da temporada, já que o clube não detém nenhum troféu do torneio em sua história, mas esses são resultados que vêm se repetindo ao longo desses últimos dez anos. O que é preciso ser feito para sair deste momento ruim?
Alex Silva:
 O São Paulo precisa voltar a ser o São Paulo. Eu, como são-paulino que sou, assisto a todos os jogos, vejo, por exemplo, o Jucilei se doar em campo, mas, infelizmente outras contratações não assimilaram o que é o São Paulo ainda. Na minha opinião, deveriam colocar todos esses jogadores sentados em uma sala e mostrar a grandeza do clube por vídeo, desde a época do Leônidas, para que eles entendam o que é o São Paulo, qual a responsabilidade da camisa que está vestindo. Lembro da nossa época, tinham evangélicos no grupo, ou atletas como eu, que não era evangélico ainda e bebia minha cerveja… Mas dentro de campo nos doávamos uns pelos outros independentemente de diferenças, porque sabíamos o que aquela camisa de tantos títulos representava.

Você disse que acompanha o São Paulo. E o futebol brasileiro em geral? Tem algum carinho por alguma equipe em específico?
Alex Silva: 
Acompanho sim e meu carinho é e sempre vai ser pelo São Paulo. Não estou aqui para fazer média e, sim, para falar a verdade.

Se sou quem eu sou hoje é graças ao São Paulo, seu Juvenal e Muricy Ramalho.

Então você tem vontade de voltar ao futebol brasileiro?
Alex Silva: 
No momento estou estabilizado aqui no Jorge Wilstermann. Hoje o futebol brasileiro não é mais jogado pelo jogador de qualidade, mas sim o jogador do empresário forte que investe no clube. Infelizmente são poucos os presidentes e diretores que pensam no clube, na camisa, na instituição, eles entram para se beneficiar de alguma maneira, deixando o clube e a torcida em segundo plano. Também mudei como pessoa, hoje estou nas mãos de Deus, estou feliz, não só como jogador, mas também como missionário, levando a palavra de Deus para muita gente. Graças a Ele estou muito bem aqui com minha família, em um clube que me respeita, respeita minha história e tudo que conquistei no Brasil, ao contrário daí, que só se leva para o lado negativo… Aqui voltei a ser um verdadeiro jogador e os frutos têm sido dentro de campo, reconhecidos pela torcida, diretoria e comissão técnica. Não é à toa que em pouco tempo me tornei capitão.

Você foi para o Jorge Wilstermann no início de 2017, uma equipe de referência na Bolívia, mas pouco falada no Brasil e no mundo. Você acredita que, neste clube, você tem a visibilidade necessária para voltar ao Brasil ou, de repente, à Seleção Brasileira?
Alex Silva: 
Olha, não é pouco falada… O Jorge Wilstermann repercutiu até na Europa pela campanha de 2017 na Libertadores, nos tornamos bem conhecidos, inclusive por vocês no Brasil, que disseram que seríamos um saco de pancadas e depois nos colocaram até como favoritos ao título. O clube tem até escola de futebol em São Paulo, na última peneira deu mais de 100 garotos… Não se pode comparar, claro, o time com Palmeiras, Boca Juniors, River Plate, Corinthians, São Paulo, Flamengo, mas pode ter certeza que hoje todos sabem quem é o Jorge Wilstermann. Sabe qual é o problema? Todos acham que estou desesperado para voltar ao Brasil, pelo contrário, estou muito bem aqui, minha filha é boliviana. Eu já recebi muitas propostas e não fui, porque nenhuma me agradou. Para deixar claro, tenho contrato aqui, vivo bem e, para sair do Jorge Wilstermann, tem que ser uma proposta muito boa. O clube é maior do que muitos imaginam. Quanto à Seleção, meu ciclo já foi e foi vitorioso. Agora é oportunidade de outros.

Na Seleção, você esteve presente nas conquistas da Copa América de 2007 e no bronze olímpico de 2008. Como é agora, aos 33 anos, ver tudo que a equipe passou desde então?
Alex Silva: 
Me sinto honrado e grato a Deus por esse privilégio de ter participado, minha história ninguém pode apagar. A Seleção passou por muitos processos, mudanças de geração, e creio que agora encontrou a melhor geração, assim como na era Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos e Cafu. Se encontrou, voltou a ser a verdadeira Seleção Brasileira, respeitada.

Como você se sentiu no 7 a 1 frente à Alemanha, nas semifinais da Copa de 2014?
Alex Silva: 
Era preciso que o 7 a 1 acontecesse para que a Seleção acordasse e mudasse seu pensamento, de que teria de ralar para fazer um trabalho certo, para ser a temida Seleção Brasileira. Está sendo assim na era Tite, então nada foi por acaso, foi preciso.

Qual seu posicionamento em relação ao torcedor brasileiro? Perder uma Copa em casa com aquele placar dá direito às pessoas dizerem tudo que foi dito da Seleção?
Alex Silva: 
A Seleção Brasileira é muito grande. Isso (o 7 a 1 para a Alemanha) não apagará sua história. Se perdesse de 1 a 0, o torcedor brasileiro também iria criticar. É a ‘webcultura’… O brasileiro ficou mal acostumado com tudo que a Seleção já conquistou.

Em uma eventual disputa entre Brasil e Alemanha em 2018, quem você acha que leva a melhor? Você torce por quem?
Alex Silva:
 Brasil leva! A Alemanha está num processo de geração e vejo que a Seleção Brasileira hoje está na frente. Torço e muito para o Brasil, já até estou preparado para a Copa, não só eu, mas toda minha família.

Meu palpite é este: Brasil campeão!

Voltando às suas experiências, depois do São Paulo, você foi para o Hamburgo, da Alemanha. Como foi esse momento fora do País, tanto pessoal quanto profissionalmente?
Alex Silva:
 Estar fora do Brasil foi uma grande experiência, de cultura, futebol, profissionalismo, tive dificuldades com o idioma e pelo frio. Pelo lado pessoal não fui muito bem, não tinha a estrutura mental que tenho hoje, mas dentro de campo fui bem, jogava de volante, e chegamos até a semifinal da Uefa. Creio que foi uma das últimas campanhas históricas do Hamburgo daquela época até hoje. Atualmente o time tem sofrido muito para se manter na primeira divisão do Alemão. Porque hoje tem sofrido muito para se manter na 1 divisão do alemão.

De volta ao Brasil, você atuou por Flamengo e Cruzeiro e depois foi a clubes menores, como Hercílio Luz, de Santa Catarina. Como foi essa reviravolta? A que se atribui? Você culpa alguém/alguma situação por essa considerada “baixa” em sua carreira?
Alex Silva:
 Essa reviravolta foi positiva para mim, porque aprendi a dar valor a certas coisas e ser grato a Deus também pelos mínimos detalhes. Tive o privilégio de ver como muitos desses jovens que têm o sonho de ser um grande jogador sofrem nessas equipes. Deus me enviou para esses lugares, para poder passar muitas experiências a eles, tanto das coisas boas quanto das ruins, e motivá-los a não desistir. Não culpo ninguém, o pecado gera consequências e você colhe o que planta. Eu plantei e colhi.

Como é sua rotina na Bolívia? Quais as diferenças em relação ao Brasil?
Alex Silva:
 Minha rotina na Bolívia hoje envolve executar meus compromissos profissionais da melhor maneira possível. Em paralelo, levo a palavra de Deus a toda criatura e curtindo minha família. Uma rotina simples aos olhos de muitos, mas que me agrada demais. A diferença para o Brasil é que trabalhamos muito nos treinos e com muita intensidade. O custo de vida aqui também é muito barato, se vive bem com pouco. Cochabamba para mim é a melhor cidade da Bolívia, o melhor clima e a melhor gastronomia. Não perde para muitos lugares do Brasil e a violência é muito baixa, quase não se vê, muito isolada.

Fonte: Gazeta Esportiva

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